Notícias do Setor

Mais dois produtos foram incluídos na lista de produtos de alta qualidade europeia, passando a poder utilizar o título de Indicação Geográfica Protegida (IGP).

 Trata-se do Jambon d’Auvergne, que é um presunto produzido nos departamentos franceses de Cantal, da Haute-Loire, do Puy-de-Dôme, de l’Allier , de la Corrèze e du  Lot.

 O outro produto é português, é a famosa Alheira de Mirandela, que, como todos sabem, é um enchido tradicional português feito à base de carne de porco e de ave.

 Estes dois produtos vêm engrossar a lista IGP, que conta já com mais de 1300 items.

 É também um grande reconhecimento pela qualidade e especificidade da Alheira de Mirandela e esta distinção pode tornar-se muito importante, não só para a produção interna, como também para a exportação deste produto.

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A Associação de Municípios Portugueses do Vinho propôs aos seus associados a criação de uma rede das aldeias vinhateiras, que visa a promoção e valorização socioeconómica das aldeias que têm no vinho o seu elemento diferenciador.

 «Entendemos que é importante promover a nível nacional uma rede de aldeias vinhateiras, baseando-nos numa experiência que foi feita no Douro, com seis aldeias vinhateiras. Esta rede terá muito a acrescentar em termos de oferta futura de enoturismo», sustentou o secretário-geral da AMPV.

 No final de uma reunião da Associação de Municípios Portugueses do Vinho (AMPV,) que decorreu ao longo da tarde em Nelas, José Arruda disse à Lusa que gostaria que ficassem identificadas até Junho as aldeias que irão integrar esta rede.

 «Numa primeira fase teremos ainda de decidir que modelo iremos seguir, dando início a uma associação de raiz ou criando uma rede nacional assente na experiência da rede das aldeias vinhateiras do Douro, que se iniciou em 2010 e constituiu-se em associação em 2013. O ideal seria pegar neste modelo que há no Douro e transformá-lo num modelo nacional», acrescentou.

 O secretário-geral da AMPV está convencido de que a associação das aldeias vinhateiras do Douro, à qual pertencem Salzedas, Ucanha, Favaios, Barcos, Trevões e Provesende,  irá aceitar o desafio de integrar uma rede nacional. «Vamos trabalhar nisso e, no dia 21 de Março, vamos ter uma assembleia geral da AMPV para aprovar o modelo a seguir», referiu.

 No seu entender, este projecto tem todas as condições de vingar e de ser um sucesso, já que nas visitas que vão fazendo pelo país percebem que «em todos os municípios há pequenos núcleos urbanos e sobretudo rurais onde o tema do vinho tem um papel muito importante, a nível económico, cultural ou social e que está a ser mal explorado».

 «Há uma procura enorme por parte dos turistas no sentido de conhecerem o que é nosso, a nossa cultura, tradição e paisagens. Através de uma rede a este nível, conseguimos ter em todo o país ofertas muito diferentes, mas todas ligadas entre si pelo vinho e cultura do vinho», sustentou.

 José Arruda revelou ainda que com esta rede pretendem criar um projecto nacional integrado e estruturado, que possa «sustentar a elaboração de candidaturas para captação de financiamento para requalificar e dinamizar esses territórios».

«Já tivemos oportunidade de estar com o senhor secretário de Estado do Desenvolvimento Rural, já pusemos esta proposta em cima da mesa e a disponibilidade dele é de poder apoiar uma candidatura ao nível desta rede. Isso para nós é fundamental e vem dar a garantia de que podemos fazer um trabalho no âmbito destas aldeias ou envolvendo as freguesias» sublinhou.

 O responsável da AMPV apontou ainda que actualmente conta com mais de 80 associados e que, nas reuniões que foram sendo feitas pelo país, em todos os municípios têm sido indicadas aldeias vinhateiras, não só no continente, como na Madeira e nos Açores.

 «Não temos um número de quantas aldeias poderão integrar esta rede, mas, como temos 80 municípios associados, serão mais de 100 ou até 200», concluiu.

Fonte: Lusa

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SIAZ – GPP estima que a produção agrícola nacional de Azeitona de Mesa tenha atingido 18 mil toneladas na Campanha 2015-2016

SIAZ – GPP estima que a produção nacional de azeite ultrapasse as 92 mil toneladas (estimativas preliminares), na campanha 2015-16, um aumento superior a 30% relativamente à produção média das últimas 5 campanhas e superior a 50% em relação à produção da campanha anterior.

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A recém-criada unidade de investigação especializada nas cadeias de valor das frutas e dos legumes, Freshness Lab, foi o mote para a conversa com Domingos Almeida, professor e investigador do ISA e especialista em pós-colheita.

O que é exatamente o Freshness Lab e porque surge dentro do ISA?

É um laboratório que surge para dar reposta aos desafios da cadeia de valor dos produtos hortofrutícolas. Temos, nas várias especialidades do ISA e no meu trabalho em particular, anos de colaboração com a cadeia de valor e existe uma compreensão grande da cadeia de valor. Desde o consumidor até à produção, temos vindo a verificar a falta de uma instalação experimental dedicada para fazer investigação de translação para estas cadeias. Há conhecimento e necessidades, mas é preciso um conjunto de recursos para levar o conhecimento de um estado que ainda não é suscetível de ser utilizado por um gestor, para o desenvolvimento de procedimentos que podem ser utilizados por quem gere, para incorporar num produto ao longo do processo. O que se montou aqui foi uma unidade a que chamamos Freshness Lab, que congrega equipamentos existentes no ISA relacionados com a caracterização e análise dos atributos de qualidade dos hortofrutícolas. Potenciamos muito a parte de instrumentação, hoje somos capazes de analisar mais de 10 000 compostos relacionados com a perceção do aroma ou com a perceção do sabor ou com o valor nutricional de qualquer fruta e hortaliça. Mas o mais interessante é que isto tudo está conjugado como uma unidade-piloto que faz estudos de último quilómetro, ou seja, o que se passa com os produtos entre o supermercado e a casa do consumidor e o que é que isso faz na qualidade do produto nas operações logísticas na cadeia de abastecimento. E está a haver enormes avanços tecnológicos e diferentes rotas de evolução da tecnologia dessas situações.

Numa lógica muito de pós-colheita?

Numa lógica de qualidade e de logística, sim, muito de pós-colheita. Da qualidade do produto na cadeia de abastecimento.

Mas também fazem análise antes da pós-colheita?

Sim. Temos um exemplo muito interessante de alguém que nos contratou este ano para ajudar a produzir, num pomar de pêssegos e nectarinas, um referencial de qualidade sensorial que desenvolvemos para uma cadeia de distribuição. Numa primeira fase desenvolveu-se aquilo que a cadeia de distribuição tinha pedido e com sucesso demonstrado, porque o índice de sabor monitorizado, semana a semana, durante toda a campanha do pêssego e nectarina do ano passado mostrou que aqueles eram os melhores pêssegos e nectarinas do mercado a nível da grande distribuição. Este ano houve uma empresa que pensou que não devia fazer isto só numa lógica de produzir e depois inspecionar e deitar fora uma grande parte do que não cumpria as especificações… E o acordo que fizemos com essa empresa foi validar todo o plano de operações, desde a poda até à colheita. E poderão falar pela diferença de resultados na forma como conduziam o pomar antes e o impacto que tiveram este ano. Tudo isso foi medido e foi feito o benchmarking desse fornecedor com outros fornecedores dentro da mesma cadeia de distribuição. Ou seja, quando nós entendemos bem a qualidade dos produtos, entendemos também como fazer no campo. A agricultura é o único setor onde as pessoas continuam a fabricar como entendem e depois a escolher…

Com enormes custos de desperdício…

Com custos enormes e com ineficiências grandes e uma forma conceptual de abordar as coisas que já não existe em lado nenhum. A conceção é a parte principal na engenharia e nós temos de perceber que quando se começa a semear ou quando se começa a trabalhar numa vinha ou num pomar, desde o ciclo vegetativo, todas as operações têm de estar orientadas para uma qualidade, não é fazer as operações e depois ver qual foi o resultado, é exatamente ao contrário… E é isto que é possível fazer…

“Tudo está conjugado como uma unidade-piloto que faz estudos de último quilómetro, ou seja, o que se passa com os produtos entre o supermercado e a casa do consumidor e o que é que isso faz na qualidade do produto nas operações logísticas na cadeia de abastecimento.”

É um mindset completamente novo…

Sim, e foi muito interessante conseguir que um produtor tivesse confiado em nós para irmos lá dizer como isto se faz e demonstrar. Naturalmente que na área dos milagres não trabalhamos, mas afinamos o nosso trabalho e as previsões materializaram-se sempre. Decidimos deixar um determinado número de ramos, de flores e de frutos porque o nosso alvo era um determinado calibre, por exemplo.

Ou seja, há também um trabalho no campo que é coerente com a pós-colheita…

Se nos disserem que querem um tomate com maior sabor temos capacidade para fazer essa demonstração, estamos a fazê-lo numa colaboração entre a produção e a distribuição. Quando fazemos engenharia e gestão temos de começar a fazer medições e a ter factos. Cabe-nos a nós traduzir estas coisas que o consumidor percebe e que a distribuição, que está junto ao consumidor, está a dizer que quer. E traduzir isso em instrumentos de engenharia e de gestão onde se possa mexer. Estamos a fazê-lo com o sabor do tomate, por exemplo, daí o conceito da centralidade nas características do produto.

Quais são os principais desafios que se colocam nesta fileira? Em especial nesta fase de boomnas exportações de hortofrutícolas…

É o desafio da eficiência e de fazer chegar ao consumidor um produto distintivo. Ao contrário da retórica que se usa, os produtos portugueses nos mercados locais de destino não são necessariamente superiores aos produtos locais. Posso relatar uma experiência que fizemos, por curiosidade, em relação à pera Rocha versus pera Alexander Lucas num supermercado Lidl alemão. Isso foi noticiado em fevereiro do ano passado, quando o setor fez um acordo com o Lidl para exportar peras Rocha para o Lidl na Alemanha. E fizemos esta experiência porque representantes do setor consideram como dado adquirido que a fruta portuguesa é intrinsecamente superior. Então pedimos a um parceiro alemão que fosse buscar a pera Rocha portuguesa e o equivalente à pera Rocha alemã, que é a Alexander Lucas, uma variedade local que todos os alemães gostam e consomem. Assim podemos fazer algo que é intelectualmente correto, que é comparar lá, no mercado de destino, uma coisa de origem portuguesa e outra de origem alemã. Mas lá, caso contrário não era comparável. A pera Rocha portuguesa analiticamente tinha um brix de 10 e a Alexander Lucas de 13. Embora o brix o ano passado fosse baixo em todo o lado…

O verão foi fresco…

Sim, mas estas coisas são muito mais fruto do trabalho do homem do que da natureza. Outra questão importante é que a pera Rocha tinha resíduos de pesticidas pós-colheita e a alemã não.

“Na questão da tecnologia, o setor hortofrutícola português está totalmente dependente em termos de inovação de fornecedores que não têm capacidade nenhuma instalada em Portugal.”

Mas era produção convencional ou biológica?

Convencional. Conseguimos demonstrar como se mexe nesses atributos de qualidade. Porque comparar duas origens é um exercício sem utilidade nenhuma. A questão é de engenharia. Como é que eu vou colocar lá, na janela de mercado que eu pretendo, o produto com as características que eu quero? Mas conseguimos fazer, temos boa capacidade para o fazer, mas precisamos de melhorar imenso a nível técnico. Imenso. A logística é uma coisa fantástica e complexa. Estas operações só fazem sentido se acrescentarem valor, mas porque muitas vezes a técnica não é adequada há situações de destruição de valor brutais…

Domingos Almeida - ISA - vertical

Qual é o desafio? Quando se começa a exportar há um novo mundo a nível de logística, onde é que estamos a cometer erros?

Temos de reconhecer que o setor teve um excelente desempenho em termos de aumento de exportações, reagiu muito bem às condições conjunturais que surgiram, mas esse crescimento das exportações não é sustentável. Tivemos taxas de crescimento de 10% em anos de contração de procura interna e isso não é sustentável. As extrapolações que se estão a fazer das taxas de crescimento para 2020 não são reais, não são possíveis. Até porque não estamos sozinhos no mercado e quando temos uma visão global e vamos aos locais, a Londres, a Berlim, vemos muitas outras origens com muito mais eficiência junto dos consumidores locais a reivindicar a sua superioridade.

Eficiência a que nível?

Comunicacional. Ainda trabalhamos em situações de nicho. Nas situações de logística e de transporte temos perdas muito grandes de benchmarking. Perdas de água durante o armazenamento, que são 10 vezes superiores àquilo que fazem os holandeses. Podemos dizer que 5% pode ser bom, não é importante, mas os holandeses estão a trabalhar com 0,5%… Ineficiências que têm de ser vistas caso a caso…

Isso é falha na tecnologia?

Tecnologia e gestão de operações e apreço por se fazerem certas coisas bem feitas. Curiosamente os investimentos em tecnologia que o setor tem feito são astronómicos. Tem havido muito investimento em tecnologia que não se domina…

Ou seja, como não a sabemos utilizar não é eficiente?

Exato. Daí a necessidade de experimentação. Por isso um conjunto significativo de empresas na área da pera Rocha ter apoiado uma unidade de experimentação dedicada às questões de pós-colheita aqui no Freshness Lab, que lhes pode dar coeficientes técnicos para que possam escolher a tecnologia mais adequada. E a mais adequada para uma empresa não tem de ser a mais adequada para a outra. A decisão empresarial e o resultado da negociação entre os fornecedores de tecnologias credíveis e os diferentes utilizadores dessas tecnologias é um processo que tem a sua dinâmica própria… mas como é que hoje alguém consegue tomar a decisão de adquirir a tecnologia a ou b, com o estado de conhecimento que temos ao nível da investigação de translação? Qualquer pessoa dá uma palestra sob a forma como as coisas funcionam em geral, mas ninguém diz quais são os coeficientes técnicos para um decisor poder escolher e reduzir a sua incerteza de escolha e melhorar o seu processo de negociação.

Esse é um desafio extremamente importante. Note-se também que na questão da tecnologia, o setor hortofrutícola português está totalmente dependente em termos de inovação de fornecedores que não têm capacidade nenhuma instalada em Portugal. Quer na área dos fatores de produção, quer na área das tecnologias, desde sementes, árvores, moléculas de pesticidas, novas formulações de adubos, tecnologia de conservação, sensores, estufas, toda esta gente, ninguém tem unidades de experimentação para fazer a demonstração…

Esse trabalho também pode ser feito aqui pelo laboratório?

Nas questões da pós-colheita pode ser feito, e são estes os públicos que nos interessam.

Estas empresas podem ser vossos clientes?

São nossos parceiros, podem ser nossos clientes. O que a unidade permite fazer é que alguém que tenha uma tecnologia e que acredita nela possa vir cá adaptá-la às situações dos nossos operadores. Mas há uma fase em que é mais eficaz trabalhar à escala-piloto, porque conseguimos controlar muito mais as variáveis e otimizar mais rapidamente, do que se tentar fazer isso à escala comercial. E com menos riscos, a escala-piloto existe para diminuir riscos e acelerar a otimização de processos. E é isso que o Freshness Lab permite fazer em todas as questões relacionadas com a área da pós-colheita.

Onde é que estamos mais atrasados? Falava das perdas de água…

Sim, é um custo escondido. Quando perde 5%, e em muitas situações perdemos 15%…

Mas está a falar no armazenamento ou transporte?

Em ambos.

E esse é o principal problema?

Não, o principal problema é uma má gestão da temperatura na cadeia de abastecimento. Desde o momento da colheita até chegar ao consumidor. Globalmente…

Mas esse é um processo complicado, com vários intervenientes…

Tem vários intervenientes, mas é fácil de controlar. Existem todos os mecanismos de controlo e de monitorização, o que não há é um apreço pelo rigor que é necessário ter por estas coisas…

Porque se considera isso um custo?

Porque considera-se que a necessidade de rigor não é tão grande como na realidade é.

Onde é que as falhas são maiores?

Na colheita, armazenamento e transporte…

“Não se pode vender da mesma forma uma coisa que o consumidor compra racionalmente com outra que o consumidor compra com emoção. E é essa a diferença entre o morango e a cenoura, que vai para a sopa. E é isso que nos interessa desmontar. Trabalhar da voz do consumidor para trás, aquilo que chamamos estudos do último quilómetro.”

Ponto de venda não?

O ponto de venda o que tem de fazer é vender rapidamente. Estamos muito interessados no que se passa no ponto de venda.

Mas nota-se muitas vezes que as temperaturas não são adequadas, que há demasiada luz…

Mas aí há dificuldades que já trabalhei especificamente, no entanto existe um equilíbrio entre as condições favoráveis para as pessoas e as condições ideais para os produtos. Ninguém compraria morangos se eles estivessem no ponto de venda nas condições ótimas para o produto, porque teriam de estar muito frios, e precisam de estar a uma temperatura que permita libertar os aromas. Quanto menos tempo o produto lá ficar melhor. Fomos aprendendo muito sobre a voz do consumidor e ele toma decisões de forma diferente.

O consumidor de frutas toma uma decisão emotiva e o consumidor de legumes toma uma decisão racional. Os legumes vão na lista de compras e compram-se batatas com base no preço, ou couves com base no preço. Nas frutas colocamos três frutas na lista. Vamos com intenção de comprar banana ou laranja ou maçã. Depois tomamos a decisão no ponto de venda porque vemos a cereja, o morango e a melancia… A decisão é tomada lá e é emotiva, daí o aroma e o sabor serem importantes. Daí a necessidade de sabermos como o consumidor se comporta na loja, para introduzirmos na engenharia da qualidade do produto coisas que hoje não estão bem explícitas, caso desta questão do aroma e do sabor. E por isso não se pode vender da mesma forma uma coisa que o consumidor compra racionalmente com outra que o consumidor compra com emoção. E é essa diferença entre o morango e a cenoura, que vai para a sopa. E é isso que nos interessa desmontar.

Trabalhar da voz do consumidor para trás, aquilo que chamamos estudos do último quilómetro. Há mecanismos para levar o consumidor a estar em contacto com o produto. Depois há a decisão da compra e o consumo. Não pode estar tudo no mesmo saco. E 65% das vendas de frutas e legumes são feitas na grande distribuição. Pessoas que estejam em mercados muito competitivos, com clientes muito exigentes ou em cadeias de distribuição longas precisam de manter o aroma e o sabor. Queremos traduzir isto para requisitos e especificações para se poder fazer engenharia destes produtos.

Nunca ninguém se preocupou muito com isso…

Nem era fácil. A nossa abordagem aqui é totalmente multidisciplinar e temos um método, mas não temos uma disciplina, porque as disciplinas nestas áreas têm uma divisão que vem da década de 50, que já não se ajusta minimamente às necessidades e problemas que as cadeias de valor estão a enfrentar. Falei-lhe de coisas que têm claramente a ver com Sociologia da Alimentação, coisas que são claramente ciências cognitivas e vamos falar com pessoas dessas áreas para perceber, dentro do produto, como é que esses novos atributos de qualidade vão marcar o futuro…

Deixe-me voltar atrás, quando falava do problema de controlo de temperatura, porque é que isso acontece? Por desconhecimento? Não há regras para as diferentes fases do produto ou não são seguidas?

Não sei se as pessoas sabem ou não. Já assisti a formadores de HACCP a recomendarem temperaturas totalmente desaconselhadas para a conservação do tomate, naturalmente mal informados. Mas sabe-se.

As recomendações variam de variedade para variedade?

Em algumas situações deviam ser específicas. Se trabalhássemos com rigor e com os níveis de eficiência dos nossos concorrentes teríamos esse cuidado, até podíamos diferenciar para distintas zonas de produção. Mas em geral não é necessário ir a esse detalhe. Temos feito muitos trabalhos de monitorização, colocamos sensores de temperatura e vamos acompanhando. Muitas vezes sabe-se como se deve fazer, mas não se tem apreço pelas consequências que uma má gestão da temperatura tem na frescura e na qualidade dos produtos. As empresas têm de se capacitar nessa área. Na área da fruticultura só reconheço dois técnicos competentes na área da pós-colheita em Portugal…

Ligados às empresas?

Sim. As pessoas que têm qualificações, mas não estão a exercer não têm competências… Ou se está a fazer ou não se está a fazer.

Tendo em consideração o nosso universo de empresas é preocupante…

Eu acho que sim. E eles reconhecem isso… O setor hortofrutícola nacional justifica que haja 300 pessoas a trabalhar em conhecimento ao serviço deste setor. Todos os produtos que faturam mais de 100 milhões de euros justificam este número de especialistas de cultura, de cirurgiões da cultura. Sem ser na área dos vinhos não temos especialistas, nem no azeite temos, fomos buscar toda a agronomia do olival a Espanha, o que é triste. E precisam de um nível de financiamento que seria compatível com 1% deste volume de faturação. O setor globalmente tem possibilidade de crescer na cadeia de valor. Não vai crescer exportando para geografias que estão demograficamente em crescimento, como a Ásia ou África, por causa da perecibilidade dos produtos. A Europa e o Atlântico são as nossas geografias e as dinâmicas de fundo nestas geografias fazem com que a classe média esteja a perder poder de compra, e é difícil crescer na cadeia de valor. A demografia não está a aumentar e nós já ingerimos alimentos a mais. Não havendo mais estômagos, só é possível crescer sem novas bocas se ganharmos quota a outros setores da alimentação. Não há muito espaço para crescer globalmente. Vejam-se os relatórios de contas das multinacionais cotadas, ninguém liga à Europa. Mas como dizia, as curvas tecnológicas destes produtos são extremamente rápidas. Refiro-me aos fatores de produção como as sementes, que são a principal fonte de inovação na área das hortícolas… E nas áreas tecnológicas. Nas estufas, na revolução que está a existir a nível dos LED e da iluminação…

Isso está a passar ao lado da nossa agricultura?

Está a passar ao lado da maneira correta. As pessoas que estão a trabalhar e têm tecnologia também vêm cá. Mas o mercado português não é suficientemente interessante para nenhuma empresa de sementes, por exemplo. O campo de ensaios da Monsanto está onde? Em Múrcia ou Almeria. Depois há cá um comercial e há uns ensaios técnicos comerciais junto dos utilizadores. Mas veja qual é a curva. Só quando os nossos concorrentes já têm a tecnologia instalada é que a começamos a testar. A adaptação de lá para cá é outro ciclo e as curvas são rapidíssimas. A duração média de uma variedade de tomate no mercado são cinco anos, estão sempre a mudar.

Como é que contornamos isso? Não temos capacidade para sermos nós a desenvolver…

Não é viável. Deixe-me dizer-lhe que na década de 40 descobriu-se um gene em Portugal que revolucionou o germoplasma do tomate que se chama Alcobaça. Ficou depois Alcobaca por causa dos ingleses, mas revolucionou a genética do tomate. Mas isso passou tudo ao lado de Portugal, nunca conseguimos criar um verdadeiro cluster apesar de haver muitos polos eclusters, até de mais, nunca conseguimos criar um cluster. É como o presunto de Parma, tem o presunto, tem a marca, tem a embalagem, as máquinas… e vai-se lá e tem a NASA dos presuntos… Porque é que os italianos são tão fortes nos seus produtos? Porque existem estes clusters e em Portugal isso não existe. E em todas as discussões de documentos estratégicos nunca vejo isso, leio todos os estudos e relatórios e vejo gente que não estudou a extrapolar as coisas. Há gente a definir prioridades, mas quando acabarem de as definir já nada existe…

Domingos Almeida - ISA - vertical - 2

Mas como é que podemos contornar esta situação de sermos os últimos no processo?

Uma tecnologia dá-nos benefícios até certa altura. E depois temos um momento, como aconteceu com o DPA [difenilamina, antioxidante utilizado na pós-colheita para prevenção do ‘escaldão superficial’ em peras e maçãs que foi recentemente proibido]. Era previsível que isso fosse acontecer, e foi a razão pela qual 14 empresas se associaram a nós há um ano quando desapareceu o DPA… Mas leva 5 anos a encontrar alternativas. Em 2010 quantifiquei os custos das perturbações no mercado na ausência do DPA. Porque reduzir o período de conservação e colocar tudo no mercado num período mais pequeno teria consequências a três níveis: por um lado aumentaria a oferta num período mais curto com baixa de preço, por outro lado os custos fixos estão lá e não os estamos a secar. Finalmente, os clientes e as pessoas que trabalham circuitos comerciais mais sofisticados estão à espera do produto, se tiverem de se ir abastecer nos outros nove meses noutro lado depois voltam? Isto não se faz de um dia para o outro. Mas ninguém estuda a pera Rocha, porque só a nós é que nos interessa, e tem particularidades de conservação que mais nenhuma tem. A maneira inteligente de fazer isto não é fazer listas de investigação nem prioridades, mas é ir vigiando tecnologias. Quando esta desaparecer ou deixar de ser eficaz entra numa fase perigosa e aí não há boas decisões. Não sabemos o que vai prevalecer no futuro e lidamos com incertezas, não sabemos se vai vingar o VHS ou o Beta.

Quando estou a trabalhar com uma tecnologia que está a resultar já devo estar a testar outras?

Tem de ter uma instituição que o faça. Se for a Nestlé faz isto em casa, mas a Nestlé tem uma faturação da ordem do PIB de alguns países. Num país que tem um PIB pequeno e tem um setor que vale o que vale, não se consegue fazer isto sozinho. Das várias tecnologias alternativas que surgem em cada momento não sabemos o que vai vingar, muitas vão desaparecer e o salto de uma tecnologia para a outra é um momento extremamente crítico na estratégia de uma empresa ou setor. Porque se se salta demasiado cedo, ou demasiado tarde, é fatal.

Isso deve ser feito por uma entidade?

Deve haver capacitação no país, no setor. Mas como somos pequenos não conseguimos manter o grau de especialização que outros países conseguem, não fazemos vigilância tecnológica.

O Freshness Lab está capacitado para isso?

Sim, todo o modelo é com base nisto. Neste momento estamos a olhar especificamente para a questão da pera Rocha, porque foram eles que se comprometeram connosco com este modelo. Esta atitude requer um modelo de gestão completamente diferente. Estamos a olhar para a substituição dos fungicidas pós-colheita, para alterações nos métodos de desinfeção da água, que são coisas que vão acontecer, estamos a olhar para as tecnologias emergentes de monitorização da atmosfera controlada com base nas respostas fisiológicas dos frutos… Neste momento há cinco boas propostas no mercado, cinco conceitos e tecnologias. E uma vai prevalecer e as outras vão morrer. Não sabemos se será Beta ou VHS, cada empresa terá o que escolher ter, mas nós aqui para percebermos isso temos de ter o Beta e o VHS. E quando o vídeo desaparecer e passar a MP3 temos de ter visto logo isso, não podemos é perceber depois de fecharem os Blockbusters…

 

Fonte: Vida Rural

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O ministro da Agricultura, Capoulas Santos, assegurou o apoio mínimo de 500 euros aos pequenos agricultores e um teto máximo de 300 mil euros de ajudas para os maiores agricultores.

 No âmbito da Política Agrícola, o valor de ajudas dos fundos comunitários deverá aumentar 20% ainda este ano. “Conseguimos estabelecer [junto da Comissão Europeia], pela primeira vez, um pagamento mínimo”, garantiu o ministro.

 No âmbito da Politica Agrícola Comum, o pagamento único aos agricultores é calculado tendo por base as dimensões das propriedades agrícolas, de modo a que o valor mínimo a receber seja de 500 euros.

 “Enquanto antes, havia agricultores que recebiam 70, 80, 90, 100, 120 euros (…), a partir de agora nenhum agricultor […], recebe menos de 500 euros”, explicitou Capoulas Santos. Além disso, o ministro confirmou que existe a hipótese de ainda este ano se aumentar esse valor em 20%, ou seja, “passar esse pagamento mínimo de 500 para 600 euros”, mas a medida ainda carece de autorização pela Comissão Europeia.

 No entanto, esses 20% apenas serão atribuídos aos agricultores que receberem menos apoios, numa tentativa de distribuir as verbas comunitárias de forma a “tirar de um lado e pôr noutro”.

 Por outro lado, o valor pago por cada hectare vai ser alterado, para que os proprietários recebem mais por cada um dos primeiros cinco hectares e menos por cada hectare, à medida que a dimensão da propriedade aumenta. Assim, haverá um aumento de 50% por hectare nos primeiros cinco, que até agora não atingia os 200 euros.

 O governante acrescentou ainda que, a partir dos 5 hectares o valor pago baixa de forma progressiva e o apoio global terá um limite máximo de 300 mil euros, recordando que na Europa não há tetos fixados para apoio aos agricultores, mas passará a haver em Portugal, em beneficio dos pequenos agricultores.

 No entanto, esta medida apenas poderá entrar em vigor na próxima campanha, uma vez que terá de ser comunicada à Comissão Europeia até 01 de agosto” e posteriormente receber autorização desse órgão.

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O presidente da Coamêndoa – Cooperativa Agrícola de Produtores de Frutos de Casca Rija, Paulo Petiz, defende a aplicação de várias medidas para a dinamização do setor.

«Dever-se-ia promover uma agricultura económica social e ambientalmente sustentável. Nesse sentido é absolutamente essencial continuar a apoiar a promoção de produção nos modos de produção integrada e de produção biológica. Preocupa-nos o disposto na Portaria nº 25/2015, de 9 de fevereiro, que não prevê a possibilidade de transição de compromissos assumidos no âmbito da operação 7.2.1 – Produção Integrada para a Operação 7.1.1 – Conversão para Agricultura Biológica, do PDR 2020. Pensamos que a não permissão da transição de compromisso entre as referidas operações é um erro crasso. Preocupa-nos, que a referida transição não seja uma situação pontual, mas, que seja uma situação estrutural e se caso se confirme esta última hipótese, o sector da amêndoa no distrito da Guarda, perderá de forma lamentável toda a sua competitividade», afirmou.

O responsável também defende «apoios específicos do Ministério da Agricultura para apoiar os viveiristas a multiplicar as variedades nacionais de amendoeiras».

«Deveriam criar-se medidas para acabar com os intermediários que não asseguram a comercialização de produtos com qualidade e que operam à margem do sistema fiscal. Dever-se-ia estabelecer um equilíbrio entre os produtores e os grandes grupos de distribuição e procurar formas de compensar de forma mais justa o agricultor. Por fim, os procedimentos administrativos na elaboração de projetos ou nas candidaturas anuais deveriam ser simplificados, deveria ainda haver mais estabilidade legislativa para que os agricultores pudessem saber com o que contar no futuro e não viverem constantemente sobressaltados com alterações legislativas», defende.

Em relação ao futuro, o dirigente indica ainda que «felizmente vão-se abrindo novos mercados que associam a amêndoa a um produto de qualidade, socialmente e ambientalmente sustentável e saudável. Se se conseguir manter a boa imagem que a amêndoa tem conseguido junto dos consumidores o futuro do setor estará garantido. Se conseguíssemos promover e executar as ideias aqui referidas, o futuro da amêndoa seria bem risonho».

Fonte: Jornal A Guarda

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Um grupo de investigadores do Centro de Engenharia Biológica da Universidade do Minho desenvolveu uma enzima capaz de destruir a bactéria responsável pela doença Loque Americana, que afeta abelhas jovens e pode matar toda a população de uma colmeia.

Num comunicado enviado à agência Lusa esta segunda-feira, o Centro de Engenharia Biológica (CEB) da academia minhota explica que a Loque Americana (AFB) é uma das “mais graves” doenças bacterianas que afetam abelhas em Portugal mas principalmente na Europa e na América do Norte.

 De acordo com o texto, o objetivo da investigação em curso é “desenvolver uma estratégia terapêutica para utilização em apicultura que constitua uma alternativa à administração de antibióticos nas abelhas”. Isto porque, explica o CEB, “com a atual restrição à presença de resíduos de antibióticos no mel, impostas pela legislação da União Europeia, há uma dificuldade acrescida no combate terapêutico à AFB, impondo-se um desenvolvimento urgente de métodos antimicrobianos alternativos.” A AFB começa por “afetar as abelhas jovens, as larvas, e rapidamente se espalha por toda a colónia de abelhas” e, alerta o texto, “se não for tratada, pode resultar na morte de toda a população da colmeia num curto espaço de tempo”. Os investigadores, refere o CEB, “já confirmaram que a enzima desenvolvida tem capacidade para destruir a bactéria responsável pela Loque Americana nas concentrações que ocorrem no campo quando a doença se verifica, e que não é tóxica para as larvas”. O produto em desenvolvimento deve, assim, ser aplicado oralmente às abelhas adultas para que o possam fornecer posteriormente às larvas e/ou por pulverização direta às larvas que se encontram nos favos. “Com isto, pretende-se que quando a bactéria em causa emergir dos esporos que a protegem no intestino das larvas, a enzima que anteriormente foi ingerida impeça a sua proliferação e consequente morte lavar”, explana Ana Oliveira, investigadora do CEB. A próxima fase será a de “ensaios in vivo em larvas de abelha criadas em laboratório e posteriormente em colmeias naturalmente infetadas.”

 O CEB da Universidade do Minho, em atividade desde 1995, é um centro de investigação que opera nas principais áreas da Biotecnologia e Bioengenharia apresentando como “principal objetivo” a integração entre a engenharia e as ciências da vida, de forma a potenciar o desenvolvimento de bioprocessos industriais inovadores.

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A produção de azeitona para azeite deverá ter atingido em 2015 o terceiro maior registo dos últimos 75 anos, aproximando-se das 765 mil toneladas, um aumento de 75% face à campanha anterior, indicam as previsões agrícolas do INE. Trata-se do valor mais alto dos últimos 50 anos, sendo que a produção de azeitona para azeite não registava um pico tão alto desde 1964, segundo as mesmas previsões.

O Instituto Nacional de Estatística (INE) adianta que estes resultados foram atingidos graças aos novos olivais intensivos de regadio instalados no sul do país, que permitiram ultrapassar a falta de chuva, prevendo-se a melhor campanha em cinco décadas.

 O Alentejo aumentou a área de olival em mais de 13 mil hectares nos últimos dez anos com olivais intensivos, plantados com variedades muito mais produtivas e equipados com sistemas de rega.

 As condições climatéricas de janeiro, um mês que se caracterizou por ser extremamente quente e muito chuvoso não tiveram impactos significativos nos trabalhos agrícolas.

 “As sementeiras dos cereais de outono/inverno decorreram sem incidentes e estão praticamente concluídas, encontrando-se apenas por semear algumas áreas destinadas à cevada”, acrescenta o INE.

 Para a aveia prevê-se um aumento da produtividade de 25%, face a 2015. Em geral, as temperaturas amenas deste inverno permitiram boas germinações das searas de cereais de outono/inverno, que apresentam povoamentos homogéneos e bom desenvolvimento vegetativo, indicam as previsões agrícolas.

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Encontra-se disponível no portal do IFAP a funcionalidade para registo dos pedidos de alteração das candidaturas Selecionadas (aprovadas) da campanha de 2015/2016, podendo os beneficiários e entidades protocoladas proceder ao seu registo em O Meu Processo > Candidaturas > Regime de Apoio à Restruturação e Reconversão das Vinhas (VITIS)/Campanha 2015/2016 , à semelhança do que foi implementado para o registo das candidaturas.

Para registo dos pedidos de alteração as candidaturas têm que estar no estado Selecionada, sendo necessário criar uma nova versão da candidatura, com acesso através do botão Substituir.

Assim na sequência da realização dos investimentos ou da apresentação/submissão da declaração de plantação no SIVV, caso verifiquem que existem alterações relativamente ao que se encontra aprovado na candidatura VITIS 2015/2016, devem formalizar um pedido de alteração à candidatura, sendo que este deverá ser submetido antes da apresentação do pedido de pagamento, não podendo ser considerados aumentos de área nem montantes de ajuda aprovados.

Alerta-se, ainda, que o registo do pedido de pagamento só poderá ser efetuado depois do pedido de alteração se encontrar no estado Selecionada.

De forma a que não seja colocado em causa o cumprimento do prazo definido para a apresentação dos pedidos de pagamento/libertação de garantias e tendo em consideração o modelo de gestão de candidaturas implementado (registos on-line), foram fixadas datas limite para formalização dos pedidos de alteração, sendo para isso necessário ter em atenção a calendarização abaixo referida.

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São concorrentes em Portugal, mas fora das fronteiras desenham estratégias e partilham custos. Com as exportações de fruta, legumes e flores a ultrapassarem os mil milhões de euros até Outubro de 2015, a produção a aumentar e uma profissionalização cada vez maior, os produtores criam empresas comuns para entrar mais depressa em novos países.

 

É na pêra rocha que a estratégia parece estar a ser mais seguida, mas nos camiões que transportam a fruta fora de portas também vão, por exemplo, maçãs ou ameixas portuguesas. Nos frutos vermelhos há casos de entrada de capital estrangeiro nas organizações em troca de um acesso mais fácil aos maiores clientes mundiais.

 

Armando Torres Paulo, administrador da TriPortugal, destaca o caso da pêra-rocha que, diz, é “sinónimo” de Portugal no estrangeiro. “Não é fácil introduzir um produto novo mas depois de lá estarmos conseguimos atrair o consumidor. A pêra não é bonita, mas é resistente, é crunch [crocante], tem capacidade para resistir e isso é essencial: os donos da loja querem produtos que fiquem em bom estado o maior tempo possível. Esta pêra tem este trunfo. E permite chegar a países distantes”, conta.

 

A TriPortugal é um ACE (Agrupamento Complementar de Empresas) que, ao juntar três sociedades, se tornou no maior exportador português de pêra rocha, com vendas no exterior que oscilam entre as 15 e as 25 mil toneladas por ano. Formada pela Frutus, OMelro.OP e O Melro tem à frente uma nova geração de agricultores que seguem as pisadas dos pais. Em 2010, quando foi criada, tinha oito clientes estrangeiros. Agora tem 22. “Todos trabalham e guerreiam pelos melhores clientes no mercado interno, mas lá fora decidimos ir juntos. Abrir mercados é essencial. O primeiro ano é difícil, nos dois a três anos seguintes conseguimos fazer dinheiro, depois surge a concorrência e os preços baixam. Tudo depende do serviço”, diz Armando Torres Paulo, sentado numa mesa do stand da TriPortugal na Fruit Logistica, a maior feira empresarial das frutas e legumes que, na semana passada, decorreu em Berlim.

 

A empresa traz todo o potencial da pêra-rocha à Alemanha e, nos dias da feira, tem um cozinheiro particular que confecciona pratos com a fruta rainha das exportações nacionais. Reino Unido, Alemanha e Brasil são os maiores compradores, mas a TriPortugal está em geografias pouco comuns, como Gana, Nigéria, Singapura ou Hong Kong. “Vimos à feira para estar com clientes com quem fazemos negócio há muitos anos, trazemos um chef que prepara três pratos com pêra-rocha e os clientes, em vez de estarem connosco apenas 15 minutos, ficam 45”, conta Armando Torres Paulo.

 

Cada empresa tem os seus próprios pomares e centrais fruteiras, mas partilha a equipa técnica e comercial. Cerca de 10% da produção que vendem é comprada a outros produtores para responder aos pedidos que, diz o responsável, não têm faltado. “Tem havido procura.”

 

Foi uma “fusão” semelhante que permitiu, no ano passado, que 15 organizações de produtores vendessem em conjunto para a Lidl alemã. Só este negócio – e uma participação forte na última edição da Fruit Logistica – tornou a Alemanha no quinto maior cliente português de fruta, quando em 2014 era o décimo. A expectativa é aumentar as quantidades de fruta vendidas à cadeia de supermercados, não só na Alemanha, mas noutros países europeus onde está presente. E replicar o modelo de negociação conjunta noutras empresas de grande distribuição.

 

Manuel Évora, presidente da Portugal Fresh, a associação que promove a internacionalização do sector das frutas e legumes, adiantou ao PÚBLICO que estão em curso conversações com o Intermarché para vender produtos nacionais na Polónia, Bélgica e França. A Jerónimo Martins, dona do Pingo Doce, com forte presença na Polónia e, mais recentemente, na Colômbia, também está na mira dos agricultores para poderem expandir mercado.

 

“O que interessa é que as empresas deixem de ter vergonha de se associarem e de negociarem lado a lado. Sozinhas não têm condições para vender a clientes de grande dimensão”, defende Manuel Évora.

 

Em Berlim, cerca de 30 empresas e organizações de produtores estiveram na Fruit Logistica, instalada no gigante parque de exposições da capital alemã. O mundo todo cabe neste evento, onde há frutos com nomes impronunciáveis e países que mostram o seu domínio na produção mundial em extensos metros quadrados. Os líderes internacionais como a Dole ou a Chiquita, que levam bananas aos quatro cantos do planeta, impõem-se com estrondo, comparado com o espaço ocupado pela Portugal Fresh e as empresas portuguesas.

 

Sérgio Pereira, da Cooperfrutas, conversa com uma chinesa que saiu do seu stand instalado mesmo em frente para pegar numa pêra-rocha com ar curioso. A Jinxiang County Huaguang também vende pêras, mas da variedade nashi, cuja casca lisa e amarelo-claro contrasta com a aspereza da fruta portuguesa. É exportada da China para a Europa e fácil de encontrar em qualquer supermercado de Berlim. “Estão à venda em todas as superfícies também em Portugal. Nós é que ainda não podemos vender a nossa pêra na China”, diz o representante da organização de produtores (OP) de Alcobaça, com 100 associados.

 

As exportações de alimentos estão sujeitas a autorizações complexas fora da Europa e, com a China, o processo tem sido demorado. Capoulas Santos, ministro da Agricultura, disse em Berlim, durante uma visita ao evento, que há dossiês abertos com 23 países diferentes, mas não especificou se, entre eles, está a pujante economia chinesa, a dar cada vez mais cartas na produção agrícola. Enquanto as autorizações sanitárias não saem, os produtores nacionais apontam baterias para a Europa. Até Outubro de 2015 as vendas para os países da UE aumentaram 16%, enquanto as exportações para fora do espaço comunitário cresceram apenas 1%.

 

A Cooperfrutas foi uma das organizações de produtores que negociou em conjunto com os seus concorrentes nacionais a venda de fruta à Lidl alemã. Teve bom retorno da experiência. “Esperamos aumentar as vendas este ano”, diz Sérgio Pereira.

 

Na última campanha agrícola esta OP produziu cinco mil toneladas de pêra-rocha, 60% para exportação. E quatro mil toneladas de maçã, 30% vendida no estrangeiro. “A fruta é um bem perecível e a exportação é uma oportunidade”, remata.

 

Fernanda Machado, presidente do conselho de administração da Bfruit, percebeu cedo que a união de esforços era a única saída para os pequenos produtores de frutos vermelhos. Criada em finais de 2013 por quatro agricultores do Norte, a empresa alargou o seu capital social a 110 produtores e espera, o mais breve possível, ser reconhecida como OP. “Percebemos que devíamos aproveitar sinergias. A produção de frutos vermelhos só se consegue fazer durante 12 meses por ano no Sul do país e, por isso, alargámos o nosso âmbito a essa região. O Norte é mais forte em mirtilos”, conta.

 

Com 90 hectares de framboesa e 85 de mirtilo, a Bfruit assinou recentemente um acordo com a Multiberries que a vai ajudar a dar o salto. Esta empresa resulta de uma joint venture entre a belga Special Fruit e Gijs Hoogendoorn, sócio da First Fruit, uma das mais reconhecidas da fileira. “A Multiberries passou a integrar o capital da Bfruit que, agora, tem cinco accionistas, cada um com 15,5% de capital. O restante é detido pelos pequenos produtores”, conta Fernanda Machado.

 

A parceria poderá fazer da Bfruit uma das maiores OP de pequenos frutos em Portugal, não só em número de produtores, como também na capacidade de pesquisa de variedades, comercialização e marketing. Até 2018, a intenção é aumentar os 90 hectares destinados à framboesa para 250 hectares. “Criamos mais escala, conseguimos produzir mais volume, entrar em novos mercados e reduzir custos. Só com uma parceria deste género conseguiríamos”, continua Fernanda Machado, sublinhando que há muitos produtores de pequenos frutos mal preparados e sem estratégia comercial.

 

A concentração de esforços na agricultura teve retorno nos números das exportações nacionais. No caso dos frutos vermelhos, Portugal já é “um país de excelência” e só para a Alemanha passou de dez milhões de euros de vendas de framboesas para 30 milhões de euros, destaca Manuel Évora. Olhando para os valores globais das frutas, legumes e flores, o crescimento das vendas internacionais cifrou-se em 13% para 1008 milhões de euros até Outubro de 2015, num ritmo de crescimento muito superior ao do conjunto das exportações de bens do país (progrediram 4% no mesmo período).

 

O ministro da Agricultura, Capoulas Santos, tem como objectivo “duplicar as exportações” do agro-alimentar em quatro anos e está já a “delinear uma estratégia” para o conseguir. “As condições estão criadas, há dinamismo no sector e uma progressiva capacidade de auto-organização, que era essencialmente o que nos faltava. Felizmente há alguns apoios no quadro do PDR2020 [fundos comunitários] que iremos procurar potenciar ao máximo. Mas o que é mais importante são os produtores e as suas organizações”, sublinhou em Berlim.

 

Num jantar com produtores, deixou a fasquia alta: “Queremos crescer a um ritmo duas vezes superior ao que a economia cresce”, “aumentar o peso nas exportações nacionais” e, em cinco anos, “equilibrar em valor o saldo da balança comercial agrícola”.

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